2# ENTREVISTA 23.10.13

ZICO - "A DITADURA PODE TER ME TIRADO DA OLIMPADA"
O ex-jogador conta como o regime militar influenciava o futebol e diz que o esporte perdeu craques e pblico por falta de organizao
por Rodrigo Cardoso 

REALIDADE ATUAL - Hoje, o jogador no escolhe clube para jogar por causa da camisa como antes, mas sim pela estrutura, diz ele 

Um dos maiores dolos do futebol brasileiro, autor de mais de 800 gols, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, foi um craque dentro de campo e tambm muito atuante fora dele. Como presidente do sindicato dos jogadores, nos anos 1980, correu atrs de garantir pr-temporada decente e frias aos atletas, alm de lutar para que os clubes tivessem maior participao na administrao do negcio futebol. Hoje, aos 60 anos, atualmente treinando o Al-Gharafa, clube do Catar, o Galinho de Quintino tem acompanhado, a distncia, o levante dos jogadores no Brasil que demanda da CBF a participao de atletas no conselho de competies e federaes e uma reformulao no calendrio de jogos. J estava na hora de um movimento do tipo, diz ele. Pai de trs filhos e av de cinco netos, Zico revela que sua maior frustrao no futebol foi nunca ter disputado uma Olimpada e, na entrevista a seguir, explica por que a priso de seu irmo durante a ditadura pode ter lhe custado a participao nos Jogos Olmpicos de Montreal, em 1972.

Fui convidado pela CBF para fazer parte do comit  da Copa de 2014. No aceitei porque eu treinava o Iraque e porque perdi a confiana no Ricardo Teixeira" 

"No tem como fazer uma Copa aqui no Catar no meio do ano, o clima  terrvel. S d para treinar a partir das 19 horas e bate 34C

Isto - Voc foi um dos maiores dolos do futebol brasileiro e est aposentado h mais de 20 anos. O que gostaria de ter vivido dentro de campo e no conseguiu? 

ZICO - Faltou ter participado de uma Olimpada. Copa do Mundo  o grande evento de futebol, mas Olimpada  o grande evento do esporte. E eu estive na boca. Fiz o gol que classificou o Brasil no pr-olmpico, em 1971, contra a Argentina. Estava na lista dos jogadores olmpicos, mas, de repente, no fui chamado para os Jogos de 1972. Ficou uma frustrao grande. No futebol,  o que falta para mim. At da Champions League eu participei, como tcnico (do Fenerbahce, da Turquia). A forma como no pude participar da Olimpada foi o que mais me chateou. 

Isto - O que houve?

ZICO - Depois que ganhamos o pr-olmpico de 1971, em dezembro, entrei de frias. Quando retornei, o Zagalo e a turma da Seleo tinham chegado ao Flamengo. O Zagalo me chamou e disse que no iria contar comigo porque eu havia sido lanado prematuramente. Durante dois meses, ento, ia ao Flamengo, trocava de roupa, no treinava e vinha embora para casa. Voltei a jogar na base do clube, ganhamos um torneio e fui artilheiro. Na poca da convocao olmpica, achava que meu nome estaria na lista. A, os caras do Flamengo comentaram: P, que sacanagem fizeram com voc. No te chamaram! Foi a nica vez na vida que deu vontade de parar de jogar. 

Isto - O que o fez desistir da ideia? 

ZICO - Meus irmos me convenceram, dizendo que o Flamengo no tinha nada com isso. E eu no quis que acontecesse comigo o que aconteceu com eles. Em 1964, meu pai no quis assinar um contrato de gaveta para o Antunes e ouviu de um cara que o filho no iria para a Seleo. O Edu, em 1969, foi eleito o melhor jogador do Brasil e no foi para a Seleo. Pensei: De novo acontecendo, agora comigo? A, decidi voltar a jogar e graas a Deus tomei a deciso certa. Mas minha irm, psicloga, bate na tecla de que fui impedido de ir  Olimpada por causa do regime ditatorial, do problema do meu irmo Nando (Fernando Antunes Coimbra), que foi pego pelos militares e passou cinco dias na Polcia do Exrcito, no Rio. A ditadura pode ter me tirado da Olimpada.  

Isto - Por que o seu irmo foi levado pelos militares? 

ZICO - A nossa prima, Ceclia Coimbra, foi presidente do Tortura Nunca Mais durante muitos anos. Ela tinha um relacionamento com um cara que era presidente de um grmio (e foi colaboradora do MR-8). Aquele pessoal era visto de forma diferente. E meu irmo no saa da casa desses primos. O Nando era motorista de txi e um dia minha tia passou mal. Ele foi levar uns remdios  casa deles. E os caras (militares) deveriam estar de tocaia. A, acharam que havia uma reunio l e levaram todo mundo, menos minha tia e um primo adolescente. A gente acionou pessoas para tirar o Nando de l. O Edu estava bem naquela poca e todo mundo o conhecia por causa do futebol. Um primo era sargento da Aeronutica e um cara do bairro era tenente do Exrcito. Ento, quando sentiram que haviam pego a pessoa errada, o Nando foi solto. 

Isto - Esses casos envolvendo seus familiares podem ter sido decisivos para o seu corte da Seleo olmpica? 

ZICO - Na Seleo, naquela poca, s tinha militar. O treinador da Seleo olmpica era o Antoninho, mas quem comandava eram os militares. Era na escola de educao fsica do Exrcito que se decidia tudo, onde a gente treinava e se concentrava. Tenho recordao do Nando chegando em casa, muito maltratado, barbudo, apanhou um bocado. Meus irmos tiveram de tir-lo de l, para que a fisionomia dele melhorasse antes que meus pais o vissem. 

Isto - Como v a mobilizao dos jogadores brasileiros por uma melhor administrao do futebol?

ZICO - J estava na hora de um movimento desse tipo. H seis anos sabe-se que a Copa ser no Brasil. Por que ento os rgos de classe no foram chamados para conversar sobre o calendrio no ano da Copa? Tudo est sendo imposto. Ento, tem de marcar posio como fizeram os atletas. A gente j vem lutando h anos por um calendrio mais justo. Falo de cadeira, porque fui presidente do sindicato (dos jogadores) do Rio de Janeiro, no comeo dos anos 80, corri atrs disso. 

Isto - Como era a sua atuao? 

ZICO - Lutamos para criar um sindicato. Eram necessrios cinco estaduais para ter um nacional, e conseguimos. Hoje, existe uma representatividade total da classe. A elaborao do calendrio nunca foi conversada com os atletas. Eu, quando capito da Udinese, na Itlia, nos anos 80, participava de reunio com dirigentes que queriam ouvir os jogadores. Sempre briguei por frias, pr-temporada decente. Em qualquer lugar do mundo voc se apresenta depois de 30 dias de frias e s vai jogar uma partida oficial um ms depois. No Brasil, so dez dias de preparao. Em 1981, depois de o Flamengo ser campeo do mundo, o clube veio falar conosco, porque terminamos a temporada em 12 de dezembro e teramos jogo j no dia 20 de janeiro. Teramos s sete dias de preparao. Conversamos e fizemos um acordo. Mas, na maioria das vezes, no  assim.  

Isto - O Brasil teve sua liga organizada por clubes, a Copa Unio, em 1987. A Premier League inglesa, administrada por clubes que romperam com a confederao local, s surgiu cinco anos depois. Hoje, porm, a Inglaterra evolui na organizao e aqui houve estagnao.  

ZICO - Aqui houve retrocesso. Foi por causa do retrocesso que a gente acabou perdendo os grandes jogadores, que estavam jogando no Brasil. Sem eles, comeamos a perder o pblico. A Copa Unio, em 1987, foi sucesso de pblico mesmo com a transmisso dos jogos pela tev. Mas, com o sucesso, comearam as vaidades. Essas vaidades acabaram por fazer com que deixssemos passar uma grande oportunidade de criar uma liga forte. 

Isto - Chegou a ser consultado na poca em que se formava o Clube dos 13, no final dos anos 80? 

ZICO - Em nenhuma reunio de dirigentes, de confederao ou federao, qualquer jogador foi convidado. Nunca fomos chamados para nada. Antes do Clube dos 13, quando eu era presidente do sindicato, procurei a Justia do Trabalho para requerer vistoria nos estdios antes de comear o campeonato. E teve dirigente que se negou a nos receber. Outros disseram que no iriam deixar o campo e o estdio em boas condies para um clube grande ir l e dar goleada. A mentalidade era essa! Os caras deixavam o campo ruim de sacanagem. Se hoje temos campos que so tapetes,  porque foi uma vitria de classe da gente l atrs. Hoje, o jogador no escolhe clube para jogar por causa da camisa como antes, mas sim pela estrutura. Quem oferecer isso leva o cara. 

Isto - Como avalia a administrao do produto futebol no Brasil? 

ZICO - O futebol no  administrado com responsabilidade. Administram o futebol s para ganhar e no como se fosse o seu patrimnio. No se pode ter clubes que aumentam suas dvidas a cada administrao. Ser que se tomssemos o futebol como nosso patrimnio iramos permitir que a dvida s aumentasse? Falta essa responsabilidade.  

Isto - Aceitaria ser presidente da CBF? 

ZICO - No  o meu objetivo. Estive junto da CBF duas vezes, porque acreditei como coordenador-tcnico (da Seleo, na Copa de 1998) e como participante de um comit que pleiteava a Copa de 2006 aqui no Brasil (foi presidente do Comit Organizador da candidatura do Brasil para sediar aquele Mundial). Me dei mal no final, porque o Ricardo (Teixeira, ento presidente da CBF) no foi capaz nem de vir at ns para dizer o porqu de ter aberto mo da candidatura do Brasil. Eu estava em um congresso da Fifa em Luxemburgo e de l iria para Zurique. Mas o Ricardo um dia simplesmente ligou e disse: No precisa vir para Zurique porque estamos abrindo mo da candidatura. P, foi uma porrada sem tamanho a maneira como fomos desligados. Ele deveria ter tido a honradez de falar com quem trabalhava ao lado dele com esse sonho. E a gente viajou pelo mundo todo em congressos da Fifa para fazer campanha.  

Isto - Ricardo Teixeira se desculpou?  

ZICO - Fui convidado pela CBF para fazer parte desse comit da Copa de 2014 junto com o Ronaldo. No aceitei. Primeiro, porque eu treinava o Iraque e tambm porque perdi a confiana nele (Ricardo Teixeira). Nessa ocasio foi que ele veio me pedir desculpas, explicou as razes. A CBF fez um acordo: retiraria a candidatura em 2006, assim como a frica do Sul. A, o Brasil votaria a favor da frica do Sul para 2010 e toda a frica votaria no Brasil para 2014. 

Isto - O pas onde voc vive, o Catar, foi uma boa escolha para sediar a Copa de 2022? 

ZICO - No tem condio de fazer uma Copa aqui no meio do ano. Em julho, o clima  terrvel, muita umidade, todos suam demais. Eles disseram que iriam refrigerar os estdios. Mas e os centros de treinamentos? Onde os caras vo treinar? Eu estive aqui, antes, quando dirigia o Iraque, em junho. S d para treinar a partir das 19 horas e mesmo assim bate 34C. De manh, no d para sair na rua, o calor  desesperador. A Copa aqui tem de ser em novembro, dezembro. E a Fifa j sabia disso, lgico.

Isto - Voc j treinou times na Turquia, no Iraque, Uzbequisto, Japo, na Rssia, Grcia e, agora, no Catar. Acostumou-se com essa vida de forasteiro? 

ZICO - A gente acostuma. Na vida  o seguinte: no se pode desperdiar oportunidade. Ela passa na sua frente e no se deve brincar com a vida. Eu tenho uma vida legal, corro atrs, tenho uma infraestrutura grande comigo que preciso manter. Gostaria de ficar de papo para o ar no Brasil, tocando o meu projeto da escola de futebol, levando os meus netos para a escola, passeando com eles e com a famlia, mas no d. 

